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Autismo do rico e autismo do pobre: quando o cuidado vira privilégio
Existe uma frase que costuma incomodar:
“autismo do rico e autismo do pobre”.
Muitos rejeitam essa ideia. Dizem que autismo é autismo, independentemente da classe social.
Mas, na prática, essa afirmação não se sustenta.
Porque o que muda não é o diagnóstico.
É o acesso.
E acesso, no Brasil, ainda é profundamente desigual.
O que temos visto, cada vez mais, é a transformação do campo das deficiências, especialmente do autismo, em um mercado altamente lucrativo. E isso, por si só, não seria um problema, se não viesse acompanhado de uma questão ética fundamental: quem está sendo deixado de fora?
Existem profissionais extremamente qualificados, comprometidos e éticos. Mas também existem aqueles que entram na área não por identificação, não por responsabilidade social, mas porque “dá dinheiro”.
E isso é grave.
Porque não estamos falando de um serviço qualquer.
Estamos falando de vidas.
Trabalhar com pessoas com deficiência exige preparo técnico, mas também exige disponibilidade emocional, paciência e compromisso. Não é simples. Não é leve.
Não é rápido.
É uma atuação que envolve, muitas vezes, famílias em sofrimento, sobrecarga, ausência de rede de apoio e vulnerabilidade.
E, nesse contexto, o vínculo não é um detalhe.
É a base de tudo.
Sem vínculo, não há intervenção efetiva.
Sem confiança, não há avanço.
Uma criança não aprende com quem ela não confia.
Um paciente não evolui com quem não o compreende.
Quando profissionais entram na área sem essa disponibilidade, o que se produz não é cuidado. É mais uma camada de negligência.
E essa negligência se soma a uma outra, ainda mais estrutural: a desigualdade de acesso.
Enquanto uma parcela da população consegue pagar por avaliações completas, intervenções intensivas, equipes multidisciplinares e profissionais altamente especializados, outra parcela sequer consegue chegar ao diagnóstico.
O sistema público de saúde, já sobrecarregado, não dá conta da demanda. As filas são extensas. O tempo de espera é longo. E, nesse intervalo, o desenvolvimento não espera.
O que temos, então, é um cenário de subdiagnóstico massivo.
Quantas crianças, adolescentes e adultos estão hoje sem diagnóstico? Quantos estão sendo interpretados como “mal comportados”, “desinteressados” ou “difíceis”, quando, na verdade, estão sem acesso ao que precisariam?
E isso se agrava quando consideramos que o autismo não é homogêneo. Mesmo com critérios diagnósticos bem estabelecidos, cada indivíduo apresenta um perfil único, com diferentes níveis de suporte, diferentes sensibilidades e, muitas vezes, múltiplas comorbidades.
Isso exige intervenção qualificada.
E intervenção qualificada custa caro.
Cursos são caros.
Formações são caras.
Certificações são caras.
Protocolos são caros.
E, aos poucos, o cuidado vai se tornando um produto acessível apenas a quem pode pagar.
Enquanto isso, famílias em situação de vulnerabilidade fazem o que conseguem. Sem orientação adequada, sem acesso a estratégias eficazes, recorrem a alternativas possíveis dentro da sua realidade. Adaptam o ambiente como podem. Criam estratégias de contenção como conseguem.
E, muitas vezes, são julgadas por isso.
Mas pouco se fala sobre a ausência de suporte que levou até ali.
Existe, inclusive, uma lacuna importante em serviços públicos de emergência. Protocolos adequados de manejo em crise, especialmente para pessoas com autismo, não são amplamente difundidos em serviços como SAMU ou corpo de bombeiros.
Ou seja, nem a rede básica, nem a rede de urgência estão preparadas de forma consistente.
E, diante disso, surge uma pergunta desconfortável:<br>quem está, de fato, promovendo a exclusão?
Porque ela não acontece apenas fora da nossa área.
Ela também acontece dentro dela.
Quando os serviços se tornam inacessíveis.
Quando os valores praticados afastam grande parte da população. Quando não se considera o contexto social do paciente.
O próprio Conselho Federal de Psicologia prevê a possibilidade de adequação de valores, de atuação social, de flexibilização.
E isso não é caridade. É compromisso ético.
Isso não significa que profissionais não devam ser bem remunerados.
Não se trata de desvalorizar a profissão.
Trata-se de reconhecer que não podemos, ao mesmo tempo, defender inclusão social e praticar exclusão no acesso ao cuidado.
Existe um limite entre valorização profissional e elitização do serviço.
E esse limite precisa ser constantemente revisado.
Porque, no fim, a pergunta é simples:
Estamos na área para transformar realidades?
Ou estamos apenas ocupando um espaço que se tornou financeiramente promissor?
A inclusão não pode ser um discurso seletivo.
Ela precisa alcançar quem mais precisa.
E, enquanto o acesso ao diagnóstico e ao tratamento continuar sendo um privilégio, não será possível falar em inclusão de forma honesta.
No meu exercício profissional, existe uma clareza muito importante: eu não vou mudar o mundo.
E tudo bem.
Mas eu posso contribuir para mudar o mundo de pequenas pessoas que estão ao meu redor.
E isso, para mim, já é significativo.
Porque existem pessoas que precisam de cuidado.
E essas pessoas não estão distribuídas de forma igual na sociedade. As classes sociais não são injustas por acaso. Elas são resultado de uma estrutura marcada por desigualdades históricas, por preconceito, por racismo, por exclusões que se perpetuam.
E são justamente essas populações, essas minorias, que seguem com menos acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à qualidade de cuidado.
Esse não é o mundo que eu gostaria que existisse.
Eu gostaria que todas as pessoas tivessem acesso ao mesmo nível de tratamento, à mesma qualidade de cuidado, independentemente da sua condição social.
E, dentro do que está ao meu alcance, é isso que eu busco praticar. Porque, no fim, a reflexão que fica é simples, mas necessária: Na sua prática profissional, você está promovendo inclusão ou está, ainda que sem perceber, reforçando a exclusão?
Existe espaço, dentro da sua atuação, para ampliar acesso?
Para criar possibilidades?
Para garantir que mais pessoas cheguem ao cuidado?
A inclusão não começa apenas nas políticas públicas.
Ela começa também nas escolhas que fazemos todos os dias enquanto profissionais.
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Talita Silva dos Santos
Psicóloga/Neuropsicóloga
CRP/SP 06/187.812





