
Inclusão não é favor: entre leis, discursos e a negligência social com pessoas neurodivergentes
25/04/2026
Inclusão Operacional:
o cuidado começa antes do exame
Hoje acompanhei minha mãe, uma idosa de 74 anos, para a realização de um exame. Chegamos às 7h48 da manhã, e a chamada para iniciar a ficha aconteceu apenas às 8h40. A senha era a número 5, e quando chegamos ainda estavam atendendo a senha 2.
À primeira vista, pode parecer apenas mais um atraso cotidiano de um serviço de saúde, mas não é só sobre atraso. É sobre experiência, sobre desgaste, sobre como ambientes de saúde ainda falham em algo extremamente básico: compreender que pessoas chegam ali já vulneráveis.
Na recepção, recebemos os documentos iniciais para conferência de dados e dois formulários para preenchimento. Enquanto ainda preenchíamos os papéis, chamaram minha mãe, e ela não pôde entrar porque os formulários ainda não estavam finalizados. Terminamos, entregamos tudo, e então recebemos novos documentos: guia do convênio, autorização de procedimento e autorização para biópsia, documentos que poderiam perfeitamente ter sido entregues no mesmo momento inicial.
Mais espera, mais etapas fragmentadas, mais sobrecarga desnecessária.
Em determinado momento, ao retornar para entregar os papéis, a atendente conversava com outra funcionária. Chamei, bati levemente a prancheta na mesa, e ela sequer percebeu que havia alguém aguardando ali. Foram cerca de dois minutos até notar minha presença, e quando percebeu, riu e pediu desculpas.
E talvez alguém leia isso e pense:
“mas foi só um pequeno desencontro”.
Mas não é pequeno quando estamos falando de saúde.
Minha mãe já estava passando mal por conta do preparo do exame, fraca, desconfortável, cansada e ansiosa. E foi impossível não pensar no que aquele mesmo ambiente provoca em uma pessoa que já chega com sobrecarga sensorial, dificuldade de processar múltiplas etapas, intolerância a ruído, exaustão diante da imprevisibilidade ou limitação para sustentar longos períodos de espera. Pessoas idosas, autistas, com TDAH, com deficiência intelectual, com transtornos de ansiedade, com dores crônicas ou condições neurológicas vivenciam, em maior ou menor grau, essa mesma realidade, só que amplificada.
E a pergunta se impõe: como esse fluxo trataria alguém ainda mais vulnerável do que minha mãe naquele momento?
Falamos muito sobre inclusão social, mas frequentemente reduzimos inclusão a discursos bonitos, rampas de acesso ou prioridade na fila. Inclusão também é pensar na experiência humana dentro dos espaços, é compreender que excesso de etapas, ambientes caóticos, comunicação falha e processos mal estruturados também excluem.
A operacionalização de um serviço comunica muito sobre o quanto aquele espaço realmente considera o ser humano.
Um ambiente de saúde não deveria exigir que alguém vulnerável passe mais de uma hora apenas para concluir uma ficha, não deveria fragmentar processos simples em cinco ou seis etapas que poderiam ser resolvidas em uma única abordagem organizada, não deveria depender da capacidade do paciente de tolerar sobrecarga física, emocional e sensorial para conseguir acessar um atendimento.
Porque acessibilidade não é apenas arquitetônica.
Existe acessibilidade cognitiva, sensorial, comunicacional, emocional.
E, principalmente, existe dignidade operacional.
Muitas vezes, profissionais da ponta também estão sobrecarregados, trabalhando em sistemas falhos, sem treinamento adequado, sem fluxos eficientes e sem condições reais de oferecer um atendimento humanizado. O problema raramente é individual, ele é estrutural.
Mas justamente por isso precisamos falar sobre isso.
Saúde não deveria ser um percurso de resistência.
Quando pensamos em humanização, precisamos parar de enxergá-la apenas como simpatia no atendimento. Humanização também é eficiência, organização, clareza, redução de etapas desnecessárias, fluxos pensados para diminuir desgaste físico e emocional.
Uma pessoa não chega a um serviço de saúde em seu melhor estado, e quanto mais vulnerável ela está, mais cada falha operacional pesa.
Talvez a verdadeira inclusão comece quando entendermos que cuidado não começa na sala do exame.
Ele começa na recepção.
Saio daquele lugar pensando, como profissional, no que eu e a NeuroAcolhe podemos fazer para minimizar o sofrimento de quem precisa utilizar esse tipo de serviço. E também em como ajudar esses ambientes a se tornarem cada vez mais acessíveis, porque muitas vezes o que falta não é boa intenção, é informação e clareza sobre como aplicá-la. Nem sempre as necessidades de inclusão são óbvias, e nem todas as equipes conhecem, de fato, os diagnósticos e particularidades de quem atendem.
Algumas mudanças simples poderiam transformar muito a experiência. Perguntar, no momento do agendamento, sobre diagnósticos, dificuldades sensoriais ou necessidades específicas, por exemplo, já permitiria à empresa antecipar ajustes no atendimento, reduzir a espera, preparar o ambiente, orientar a equipe. Pequenas adaptações que custam pouco e mudam tudo para quem chega.
Fica a reflexão, e também o convite: como podemos, juntos, mostrar a esses ambientes que humanizar o atendimento é, antes de tudo, uma decisão operacional?
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Talita Silva dos Santos
Psicóloga/ Neuropsicóloga
CRP 06/187.812






