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18 de Maio e a luta que ainda não terminou: da Reforma Psiquiátrica ao capacitismo contemporâneo
18 de Maio e a luta que ainda não terminou: da Reforma Psiquiátrica ao capacitismo contemporâneo
Falar sobre a luta antimanicomial é, muitas vezes, gerar uma falsa impressão de que estamos discutindo apenas um passado distante, associado aos antigos hospitais psiquiátricos e às internações compulsórias que marcaram a história da saúde mental no Brasil.
Mas a luta antimanicomial nunca foi apenas sobre manicômios.
Ela sempre foi sobre a forma como a sociedade lida com aquilo que considera diferente.
O manicômio não era apenas um prédio. Era uma lógica social de exclusão, controle e silenciamento.
Uma lógica que segregava pessoas consideradas inadequadas para o convívio social: pessoas em sofrimento psíquico, pessoas neurodivergentes, pessoas com deficiência, mulheres, pobres, idosos, usuários de substâncias, sujeitos que fugiam dos padrões esperados de comportamento e produtividade.
E essa lógica ainda existe.
Ela apenas se sofisticou.
Durante décadas, o Brasil sustentou instituições psiquiátricas marcadas por violência, abandono e violações graves de direitos humanos. O maior símbolo dessa barbárie foi o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, conhecido posteriormente como o “Holocausto Brasileiro”. Estima-se que mais de 60 mil pessoas morreram no local.
Muitas sequer possuíam transtornos mentais.
Eram pessoas pobres, mulheres consideradas “inconvenientes”, indivíduos neurodivergentes, pessoas em sofrimento, homossexuais, pessoas sem rede de apoio ou simplesmente sujeitos que não correspondiam às normas sociais da época.
A exclusão social foi medicalizada.
O sofrimento humano foi institucionalizado.
E a diferença passou a ser tratada como algo a ser isolado da sociedade.
Foi diante dessa realidade que surgiram movimentos internacionais de crítica ao modelo manicomial, especialmente a partir das contribuições do psiquiatra italiano Franco Basaglia.
Basaglia defendia que o manicômio não produzia cuidado. Produzia violência, apagamento de identidade e perda de humanidade.
A Reforma Psiquiátrica Italiana, impulsionada por suas ideias, propôs o fechamento progressivo dos manicômios e a construção de serviços comunitários, territoriais e humanizados, centrados no cuidado em liberdade.
No Brasil, esse movimento influenciou diretamente a Reforma Psiquiátrica Brasileira, que passou a defender uma mudança profunda na forma de compreender saúde mental, deslocando o foco do isolamento para a inclusão social, autonomia e cidadania.
Nesse mesmo caminho, Nise da Silveira tornou-se uma das figuras mais importantes da luta humanizada em saúde mental brasileira.
Enquanto práticas violentas como eletrochoques e contenções eram amplamente utilizadas, Nise defendia o afeto, a escuta e a subjetividade humana. Ela recusava a lógica de redução do sujeito ao diagnóstico e denunciava os efeitos desumanizantes de uma psiquiatria centrada apenas no controle comportamental.
Sua atuação mostrou que cuidado não pode existir sem reconhecimento da humanidade do outro.
Mas talvez uma das reflexões mais importantes seja compreender que o pensamento manicomial não desapareceu com o fechamento físico dos manicômios.
Ele permanece presente nas estruturas sociais.
Hoje, o manicômio muitas vezes já não possui muros.
Ele aparece nas escolas que excluem crianças autistas porque não sabem lidar com diferenças. Nos ambientes corporativos que exigem padronização comportamental para aceitar alguém. Nos serviços de saúde despreparados para acolher vulnerabilidade sensorial, emocional e comunicacional. Nas terapias que tentam apagar singularidades ao invés de compreender necessidades. Nos discursos capacitistas que determinam quais corpos e cérebros merecem pertencimento social.
O capacitismo é uma continuação sofisticada da lógica manicomial.
Porque continua organizando a sociedade a partir de um ideal de normalidade.
Tudo aquilo que escapa desse padrão passa a ser corrigido, silenciado, infantilizado ou excluído.
E isso se manifesta de formas muito mais sutis do que no passado.
A exclusão contemporânea acontece quando pessoas autistas não conseguem acessar diagnóstico porque o cuidado se tornou elitizado. Quando famílias em vulnerabilidade social não conseguem suporte adequado. Quando adultos neurodivergentes são vistos como “estranhos”, “difíceis” ou “inadequados” ao mercado de trabalho. Quando ambientes sensorialmente caóticos ignoram completamente a experiência de pessoas com deficiência. Quando profissionais reduzem sujeitos a protocolos sem considerar contexto social, subjetividade e sofrimento.
A luta antimanicomial precisa, portanto, ser compreendida para além da saúde mental tradicional.
Ela também atravessa debates sobre inclusão social, acessibilidade, neurodiversidade, educação, saúde pública e responsabilidade coletiva.
Quando discutimos inclusão escolar, estamos discutindo luta antimanicomial. Quando falamos sobre acessibilidade sensorial e comunicacional em hospitais, estamos discutindo luta antimanicomial. Quando denunciamos a elitização do cuidado e a exclusão de pessoas pobres do acesso ao tratamento, estamos discutindo luta antimanicomial. Quando defendemos a presença de pessoas autistas nos espaços sociais, culturais e profissionais, estamos discutindo luta antimanicomial.
Porque o centro dessa luta nunca foi apenas o fechamento de hospitais.
Foi a defesa do direito humano de existir em sociedade sem ser violentado por ser diferente.
A própria cidade de Santos possui um papel histórico fundamental nesse processo através da Casa de Saúde Anchieta, marcada por denúncias de violações de direitos humanos e considerada um dos grandes marcos da Reforma Psiquiátrica Brasileira. A partir das transformações ocorridas no município, Santos tornou-se referência nacional na construção de modelos substitutivos de cuidado em liberdade.
Mas liberdade não pode existir apenas no discurso.
Ela precisa existir na prática cotidiana.
E isso exige uma mudança social profunda.
A Psicologia Social de Silvia Lane já apontava que o sofrimento não pode ser compreendido de forma isolada do contexto histórico, político e social. O sujeito não adoece sozinho. Ele é atravessado por relações, exclusões, desigualdades e violências estruturais.
Por isso, inclusão não pode ser reduzida a campanhas pontuais ou discursos institucionais.
Inclusão exige responsabilidade social.
Exige adaptação.
Exige disponibilidade para aprender com o diferente.
Exige reconhecer que nem todas as pessoas funcionam da mesma maneira e que isso não deveria ser motivo de exclusão.
Hoje, vivemos um momento histórico em que mais pessoas autistas estão sendo identificadas. E isso não significa necessariamente aumento da existência do autismo, mas ampliação diagnóstica, avanço científico, maior acesso à informação e redução parcial do silenciamento histórico.
Pessoas autistas sempre existiram.
O que mudou foi a possibilidade de nomear experiências que antes eram invisibilizadas ou interpretadas apenas como inadequação social.
Ainda assim, diagnóstico sem inclusão não é suficiente.
Não basta reconhecer diferenças se continuamos construindo espaços incapazes de acolhê-las.
A luta antimanicomial continua atual justamente porque ela nos obriga a refletir sobre uma pergunta desconfortável:
A sociedade realmente aprendeu a conviver com a diferença? Ou apenas substituiu os antigos muros por novas formas de exclusão social?
Talvez a maior continuidade do pensamento manicomial contemporâneo esteja exatamente na tentativa constante de normalizar sujeitos para que eles caibam em estruturas rígidas, ao invés de transformar estruturas para acolher diferentes formas de existir.
E é por isso que essa luta continua necessária.
Porque cuidar nunca deveria significar controlar. Incluir nunca deveria depender de normalização. E existir nunca deveria exigir que alguém abrisse mão da própria singularidade para ser aceito socialmente.
A luta antimanicomial é, acima de tudo, uma defesa radical da dignidade humana.
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Talita Silva dos Santos
Psicóloga/Neuropsicóloga
CRP/SP 06/187.812








