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Para além da clínica: quem prepara a sociedade para a neurodivergência?
Há algum tempo venho refletindo sobre a nossa atuação enquanto profissionais que trabalham com pessoas neurodivergentes. Mas, nos últimos dias, essa reflexão ganhou ainda mais força.
Tenho acompanhado discussões intensas nas redes sociais entre profissionais da saúde sobre atribuições, AVDs, AIVDs, formação, titulações, limites de atuação e sobre o que pertence ou não a cada profissão. E quero começar deixando algo claro: considero essa uma discussão legítima e necessária. Existem competências específicas, responsabilidades técnicas e limites éticos que precisam ser respeitados. Quando essas fronteiras não estão suficientemente claras, também é papel dos nossos conselhos profissionais se posicionarem e regulamentarem aquilo que precisa ser regulamentado.
Mas, enquanto acompanhava toda essa mobilização, comecei a pensar em outra coisa.
Enquanto estamos discutindo quem pode fazer o quê, quem possui determinada certificação, qual profissional tem determinada competência ou quanto cada profissional deveria cobrar pelo seu trabalho, o que está acontecendo com as pessoas que atendemos quando elas saem dos nossos consultórios?
Porque elas saem.
E talvez seja justamente aí que esteja uma parte do nosso trabalho sobre a qual precisamos falar mais.
Grande parte das intervenções com pessoas neurodivergentes é direcionada ao
desenvolvimento de habilidades. Trabalhamos comunicação, autonomia, habilidades sociais, autorregulação, flexibilidade, tolerância à frustração, resolução de problemas, comportamentos adaptativos e inúmeros outros repertórios importantes para a vida cotidiana.
Trabalhamos para que uma criança consiga permanecer na escola. Para que um
adolescente desenvolva maior independência. Para que um adulto consiga estudar,
trabalhar, fazer compras, utilizar serviços, estabelecer relações e circular pela comunidade.
São objetivos importantes. Muitos deles mudam vidas.
Mas comecei a me perguntar:
para qual sociedade estamos preparando essas pessoas?
Porque podemos passar anos ensinando uma pessoa autista a comunicar aquilo que precisa, mas, quando ela finalmente estiver sozinha em um restaurante, haverá alguém disposto a esperar o tempo necessário para que utilize sua comunicação alternativa?
Podemos trabalhar tolerância à espera dentro de um ambiente estruturado, mas isso significa que ela conseguirá permanecer durante uma hora em uma fila de supermercado, cercada por ruídos, luzes, pessoas, cheiros, imprevisibilidade e inúmeras outras variáveis que não estavam presentes no ambiente terapêutico?
Podemos ensinar um adolescente a pedir ajuda. Mas quem receber o pedido saberá
compreendê-lo?
Podemos trabalhar autonomia para que uma pessoa consiga circular sozinha pela cidade. Mas os profissionais de segurança pública estão preparados para reconhecer
comportamentos neurodivergentes durante uma abordagem?
Podemos preparar uma criança para a escola. Mas estamos preparando a escola para essa criança?
Essa talvez seja a parte da inclusão que ainda discutimos muito pouco.
A Psicologia Social brasileira já nos ensinou há décadas que não existe indivíduo separado da sociedade. Silvia Lane foi uma das autoras que questionou uma Psicologia excessivamente individualizante e nos convocou a compreender o sujeito a partir das relações sociais, das condições históricas e dos contextos concretos nos quais sua vida acontece.
E essa compreensão deveria atravessar também a nossa prática clínica.
Se comportamento acontece em contexto, não podemos olhar apenas para o comportamento do indivíduo e tratar todo o restante como cenário.
Quando uma pessoa neurodivergente encontra dificuldades para participar de determinado ambiente, é legítimo perguntar quais habilidades ela precisa desenvolver. Mas precisamos aprender a fazer uma segunda pergunta com a mesma frequência: o que esse ambiente precisa aprender ou modificar para que essa pessoa consiga participar?
Isso não significa negar deficiência, dificuldades funcionais ou necessidade de suporte. O paradigma da neurodiversidade não deveria ser utilizado para romantizar dificuldades reais. Existem pessoas neurodivergentes que precisam de intervenções intensivas e suporte significativo ao longo da vida.
A questão é reconhecer que nem toda dificuldade de inclusão pode ser resolvida modificando exclusivamente aquele que está sendo excluído.
Há barreiras que estão no indivíduo. Há barreiras que estão no ambiente. E, muitas vezes, elas estão na interação entre ambos.
Por isso, inclusão não pode significar apenas ensinar uma pessoa neurodivergente a se comportar de maneira suficientemente próxima daquilo que a sociedade considera típico para que, finalmente, seja aceita.
Existe uma diferença importante entre desenvolver habilidades que ampliem autonomia, segurança e qualidade de vida e ensinar comportamentos apenas para tornar alguém mais tolerável para os outros.
Precisamos saber distinguir uma coisa da outra.
A Reforma Psiquiátrica brasileira também deixou uma contribuição importante para essa reflexão. Guardadas todas as diferenças entre os campos — porque neurodivergência não é sinônimo de transtorno mental —, existe uma questão política que continua atual: não basta retirar alguém do isolamento e colocá-lo no território. É necessário construir condições para que essa pessoa pertença a esse território.
A luta antimanicomial não tratou apenas de portas abertas. Tratou de cidadania, liberdade, participação e do direito de existir na comunidade.
E talvez precisemos recuperar essa discussão quando falamos de inclusão.
Colocar uma criança autista dentro de uma escola não significa incluí-la.
Contratar uma pessoa neurodivergente não significa construir um ambiente profissional inclusivo.
Permitir que uma pessoa circule pela comunidade não significa que ela esteja segura ou que pertença àquele espaço.
Estar presente não é a mesma coisa que estar incluído.
E os acontecimentos recentes tornam essa reflexão ainda mais urgente.
Em 2026, diferentes episódios envolvendo violência contra pessoas autistas ganharam repercussão no país. São situações ocorridas em escolas, condomínios, espaços de lazer e ambientes públicos. Contextos diferentes, pessoas diferentes, circunstâncias que precisam ser analisadas individualmente, mas que nos colocam diante de uma realidade difícil de ignorar.
Um desses casos me atravessou especialmente.
Um jovem autista de 18 anos, também com deficiência intelectual, foi agredido durante uma festividade no interior de São Paulo. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, aquela era uma das primeiras vezes em que ele havia saído sem a mãe.
Para quem trabalha com autonomia, essa informação deveria provocar alguma coisa.
Quantas famílias chegam até nós desejando exatamente isso?
“Eu queria que meu filho conseguisse sair sozinho.”
“Eu queria que ele tivesse autonomia.”
“Eu queria que ele conseguisse ir a algum lugar sem depender de mim.”
Às vezes são necessários anos de trabalho para que isso aconteça.
Então um dia essa pessoa consegue.
Ela sai.
Vai para a comunidade.
Exerce a autonomia que tanto trabalhamos para desenvolver.
E encontra uma sociedade que não estava preparada para recebê-la.
Talvez aquele jovem tivesse aprendido aquilo que esperávamos que ele aprendesse.
Talvez, naquele momento, quem ainda precisasse aprender fosse o mundo ao redor dele.
É por isso que as discussões recentes entre profissionais me causaram tanto incômodo. Não porque eu considere irrelevante discutir AVDs, AIVDs ou limites de atuação. Pelo contrário. São discussões importantes e precisam acontecer de maneira séria, técnica e respeitosa. E, quando existem conflitos entre categorias, precisamos também cobrar dos nossos conselhos posicionamentos mais claros. Pagamos essas instituições justamente para que também regulamentem e orientem nossas práticas.
Mas me pergunto onde está a mesma mobilização quando uma criança autista é agredida na escola.
Onde está quando uma pessoa neurodivergente sofre violência em um espaço público?
Onde estão as grandes mobilizações profissionais para capacitar escolas, serviços de
saúde, empresas, comunidades e agentes de segurança?
Onde está a nossa indignação coletiva quando o problema deixa de ser quem possui
determinada competência e passa a ser o fato de que a sociedade ainda não sabe conviver com as pessoas que atendemos?
Não precisamos abandonar as discussões profissionais. Precisamos ampliar aquilo que
estamos discutindo.
Porque nosso paciente não vive dentro do consultório.
E, principalmente para nós, psicólogos, isso deveria ser uma questão central.
Se trabalhamos habilidades sociais, existe uma sociedade do outro lado dessa interação.
Se trabalhamos comunicação, existe alguém que precisará estar disponível para
compreender essa comunicação.
Se trabalhamos regulação emocional, existem ambientes que podem favorecer ou dificultar essa regulação.
Se trabalhamos autonomia, existe um território no qual essa autonomia será exercida.
Não podemos desenvolver repertórios como se o indivíduo existisse em um cubículo.
O mesmo vale para o acompanhamento terapêutico. Talvez uma das maiores riquezas dessa modalidade seja justamente permitir que vejamos aquilo que o consultório não consegue mostrar: como o mundo responde ao nosso paciente.
Na escola, no supermercado, na rua, no transporte, na faculdade ou em qualquer outro ambiente natural, não observamos apenas aquilo que a pessoa consegue ou não consegue fazer. Observamos também as contingências sociais às quais ela está submetida.
Às vezes aquilo que chamamos de “dificuldade de generalização” também precisa ser analisado a partir das condições que o ambiente oferece para que determinado repertório seja emitido.
Talvez, portanto, nosso trabalho precise seguir em duas direções.
Precisamos continuar desenvolvendo habilidades quando elas forem necessárias para ampliar autonomia, comunicação, segurança, participação e qualidade de vida.
Mas precisamos também contribuir para desenvolver repertório na sociedade.
Professores precisam de formação.
Empresas precisam compreender neurodivergência e acessibilidade.
Serviços de saúde precisam estar preparados para atender pessoas que comunicam dor e sofrimento de maneiras diferentes.
Profissionais de segurança pública precisam saber reconhecer uma crise, uma dificuldade de comunicação ou um comportamento neurodivergente sem automaticamente interpretá-los como resistência, provocação ou ameaça.
Comunidades precisam de informação.
E essa informação não pode permanecer circulando apenas entre especialistas, congressos, supervisões e famílias que conseguiram chegar aos nossos serviços.
Talvez uma parte importante da nossa responsabilidade social seja justamente fazer esse conhecimento atravessar os muros da clínica.
Promover rodas de conversa. Produzir materiais informativos. Capacitar equipes. Conversar com escolas. Participar de debates públicos. Cobrar políticas de inclusão. Produzir conhecimento acessível. Aproximar a Psicologia da comunidade.
Isso não significa assumir sozinho uma responsabilidade que é também do Estado, das políticas públicas, das instituições e da sociedade civil. Muito menos significa ultrapassar os limites técnicos da nossa profissão.
Significa apenas reconhecer que nós também fazemos parte da sociedade que precisa mudar.
Há ainda outro aspecto dessa discussão que me preocupa: o acesso.
Ao mesmo tempo em que debatemos titulações, certificações e valorização profissional — questões legítimas —, precisamos tomar cuidado para que a neurodivergência não se transforme em um campo de cuidado acessível apenas para quem consegue pagar.
Formação custa dinheiro. Especialização custa dinheiro. Nosso trabalho precisa ser
remunerado de maneira justa.
Mas saúde mental também é atravessada por desigualdade social.
Quando uma família precisa de diferentes profissionais, muitas horas de intervenção por semana, acompanhamento escolar, supervisão e avaliações especializadas, é impossível ignorar a realidade econômica brasileira. Se toda possibilidade de cuidado qualificado depender exclusivamente da capacidade individual de pagamento, teremos construído excelentes serviços para uma parcela muito pequena da população.
Valorizar o profissional e defender acesso ao cuidado não deveriam ser posições
incompatíveis.
Assim como possuir certificações importantes não transforma automaticamente alguém em um profissional ético e competente, não possuir determinada certificação internacional também não torna automaticamente um profissional inadequado. Formação importa. Ciência importa. Supervisão importa. Competência técnica importa. Ética importa.
Mas nenhuma dessas coisas deveria substituir consciência social.
Talvez seja justamente isso que esteja faltando em parte das nossas discussões: lembrar para quem trabalhamos e em qual sociedade essas pessoas vivem.
Durante muito tempo, nossa pergunta predominante foi:
“O que essa pessoa precisa aprender para conseguir viver na sociedade?”
Talvez seja hora de acrescentarmos outra:
“O que a sociedade precisa aprender para conseguir viver com essa pessoa?”
Se ensinamos comunicação, precisamos também ensinar pessoas a escutar formas
diferentes de comunicação.
Se ensinamos autonomia, precisamos construir espaços seguros para exercê-la.
Se ensinamos habilidades sociais, precisamos de ambientes que aceitem diferentes formas de interação.
Se ensinamos autorregulação, precisamos questionar ambientes que produzem sobrecarga continuamente.
Se ensinamos uma pessoa a pedir ajuda, precisamos de uma sociedade capaz de
reconhecer esse pedido.
Isso não significa deixar de desenvolver habilidades.
Significa parar de colocar todo o peso da inclusão sobre aquele que está sendo excluído.
Porque o paciente não desaparece quando atravessa a porta do consultório.
Ele vai para a escola, para a faculdade, para o trabalho, para o supermercado, para o hospital, para uma festa, para a rua.
E encontra professores, médicos, colegas, empregadores, policiais, guardas, atendentes, vizinhos e cidadãos que talvez nunca tenham recebido qualquer informação adequada sobre neurodivergência.
Se trabalhamos tanto para preparar essas pessoas para o mundo, talvez precisemos
começar a assumir, também, nossa responsabilidade em ajudar a preparar o mundo para elas.
A clínica continua sendo necessária. O desenvolvimento de habilidades continua sendo
necessário. As discussões sobre os limites de cada profissão continuam sendo necessárias.
Mas nenhuma delas deveria nos fazer esquecer que trabalhamos com pessoas que vivem em sociedade.
E talvez a pergunta mais importante não seja apenas quanto nosso paciente conseguiu se adaptar ao mundo.
Talvez precisemos começar a perguntar também: quanto ajudamos esse mundo a se tornar um lugar no qual ele possa existir?
Porque inclusão não pode continuar sendo uma habilidade ensinada exclusivamente à
pessoa que está sendo excluída.
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Talita Silva dos Santos
Psicóloga/ Neuropsicóloga
CRP 06/187.812
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