
Para além da clínica
12/09/2026
Quando tudo vira “autismo”: o risco de ignorar sintomas clínicos em pessoas autistas
Um chamado aos profissionais da saúde
Quando uma pessoa com diagnóstico de transtorno do espectro do autismo chega ao consultório, à unidade de pronto atendimento ou ao pronto-socorro com uma queixa, você realiza uma avaliação clínica completa ou associa rapidamente o sintoma ao autismo? Você investiga possíveis causas orgânicas ou conclui que se trata de ansiedade, depressão ou “comportamento”?
Essa não é uma pergunta meramente teórica. A forma como o profissional responde a ela pode determinar se uma condição clínica será identificada precocemente, se haverá atraso no tratamento ou se um paciente será colocado em risco.
Na minha prática clínica, já precisei insistir muitas vezes para que alguns pacientes
tivessem acesso a uma avaliação clínica ou emergencial adequada. Em diferentes
situações, diante de sintomas novos ou mudanças importantes no funcionamento, a
resposta recebida foi semelhante:
“Isso é do autismo.”
“É ansiedade.”
“É depressão.”
“É comportamental.”
Quando um diagnóstico passa a explicar tudo, corre-se o risco de não investigar mais nada.
O sombreameto do diagótico
A literatura denomina esse fenômeno de diagnostic overshadowing, ou sombreamento diagnóstico. Ele acontece quando sintomas físicos, alterações funcionais ou mudanças comportamentais são atribuídos automaticamente a um diagnóstico já conhecido — como autismo, deficiência intelectual ou transtorno psiquiátrico — sem que outras hipóteses clínicas sejam adequadamente investigadas.
O sombreamento diagnóstico não significa necessariamente uma recusa intencional de cuidado. Muitas vezes, ele resulta de vieses clínicos, formação insuficiente, dificuldade de comunicação entre profissional e paciente, ausência de adaptações no atendimento e desconhecimento sobre as diferentes formas pelas quais pessoas autistas podem manifestar dor e adoecimento.
Entretanto, ainda que não exista intenção de negligenciar, a consequência pode ser grave. A falta de conhecimento favorece o improviso; o improviso abre espaço para falhas assistenciais; e essas falhas podem custar a saúde e, em situações extremas, a vida de alguém.
Pessoas autistas apresentam maior risco de mortalidade precoce quando comparadas à população não autista. Um estudo populacional publicado em 2024, com mais de 75 mil pessoas autistas, identificou maior mortalidade por todas as causas, com risco particularmente elevado entre pessoas com deficiência intelectual associada. Esses dados não permitem afirmar que todas essas mortes decorreram de negligência médica, mas reforçam a necessidade de cuidado clínico atento, acessível e qualificado. (“Huang et al., 2024” (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38348059/)).
Outro estudo, publicado em 2025, encontrou maior mortalidade geral e risco aumentado para dezenas de condições médicas entre adultos autistas sem comprometimento cognitivo relevante. Isso evidencia que a vulnerabilidade clínica não se restringe às pessoas com deficiência intelectual ou com maiores necessidades aparentes de suporte. (“Pu et al., 2025” (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40361169/)).
Nem toda mudança de comportamento é “apenas comportamento”
Nem sempre uma pessoa com fadiga extrema, sonolência excessiva ou perda importante de energia está deprimida. Esses sinais também podem estar relacionados a infecções, alterações metabólicas, anemias, distúrbios hormonais, crises epilépticas, privação de sono ou efeitos adversos e interações medicamentosas.
Nem sempre uma pessoa que passa a urinar na roupa está “fazendo de propósito” ou apresentando regressão comportamental. Pode haver infecção urinária, retenção urinária, constipação, dor, alteração neurológica, efeito medicamentoso ou dificuldade para perceber e comunicar os sinais do próprio corpo.
Nem sempre comportamentos autoagressivos ou heteroagressivos têm como única função escapar de uma demanda, obter atenção ou acessar algum item. Uma mudança comportamental abrupta também pode ser uma forma de comunicar dor, mal-estar, medo ou desconforto, especialmente quando a pessoa não utiliza comunicação oral ou tem dificuldade para localizar e descrever o que está sentindo.
Bater a cabeça, pressionar uma parte do corpo, morder-se, empurrar outras pessoas,
recusar alimentos, chorar, gritar, fugir, não permitir aproximação ou apresentar irritabilidade intensa podem ser manifestações de sofrimento físico. Antes de formular uma hipótese exclusivamente comportamental, é necessário investigar se existe dor odontológica, otite, refluxo, constipação, infecção, lesão musculoesquelética, cefaleia ou outra condição orgânica.
A análise funcional do comportamento é indispensável dentro de seu campo de aplicação, mas não substitui avaliação médica. Da mesma forma, a presença de um diagnóstico psiquiátrico não elimina a possibilidade de adoecimento físico.
Nem todo movimento repetitivo deve ser interpretado automaticamente como estereotipia
Estereotipias fazem parte do repertório de muitas pessoas autistas e podem exercer importantes funções de autorregulação, organização sensorial, expressão emocional ou comunicação. Elas não devem ser automaticamente patologizadas ou interrompidas.
Entretanto, movimentos novos, episódios súbitos e repetitivos, alterações do olhar, períodos de aparente “desligamento”, perda momentânea de responsividade, automatismos ou mudanças abruptas no padrão motor precisam ser avaliados clinicamente. Algumas manifestações epilépticas podem ser confundidas com estereotipias, desatenção ou comportamento.
O objetivo não é transformar toda estereotipia em suspeita de epilepsia. É reconhecer que, diante de uma mudança em relação ao padrão habitual, especialmente quando há alteração de consciência, regressão funcional ou sinais neurológicos associados, o diagnóstico de autismo não deve encerrar a investigação.
A epilepsia é uma comorbidade relevante no espectro, sobretudo quando há deficiência intelectual ou condições neurogenéticas associadas. Estudos sobre mortalidade em pessoas autistas apontam as doenças neurológicas, incluindo a epilepsia, entre as causas que merecem atenção especial. (“Hirvikoski et al., 2016” (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26541693/)).
A pessoa pode parecer “bem” e ainda precisar de atendimento
Nem toda pessoa que chega aparentemente calma ao pronto-socorro está clinicamente bem.
Algumas pessoas autistas demonstram dor de maneira diferente do que o profissional espera. Podem ter dificuldade para identificar, interpretar e comunicar sensações internas, fenômeno relacionado à interocepção. Também podem não utilizar expressões faciais, gestos ou palavras de acordo com o padrão convencionalmente reconhecido pelos profissionais.
Isso não significa afirmar que todas as pessoas autistas sejam “mais resistentes à dor”. Significa compreender que a percepção, a expressão e a comunicação da dor podem ser atípicas. A ausência de choro, agitação ou verbalização compatível com a intensidade esperada não deve ser utilizada isoladamente para descartar sofrimento físico.
O profissional precisa comparar o estado atual com o funcionamento habitual daquela pessoa. Uma mudança sutil pode ser clinicamente mais significativa do que uma apresentação aparentemente tranquila.
Ouça a família e os cuidadores.
Acima de tudo, ouça os pais, familiares e cuidadores.
O profissional pode conhecer os critérios descritos nos manuais diagnósticos, as diretrizes clínicas e as manifestações mais frequentes do autismo. A família, porém, conhece o funcionamento cotidiano daquela pessoa.
Ela sabe como o paciente normalmente expressa dor, medo, cansaço e desconforto. Sabe quais movimentos são habituais, como costuma dormir, alimentar-se, comunicar-se e reagir ao ambiente. Sabe quando um comportamento é parte de seu repertório e quando alguma coisa está diferente.
Quando um familiar afirma “ele não está como de costume”, essa informação precisa ter valor clínico. Não deve ser tratada como exagero, ansiedade parental ou falta de
conhecimento técnico.
Ouvir a família não significa abrir mão do raciocínio clínico.
Significa acrescentar ao raciocínio uma fonte fundamental de dados, sobretudo quando o paciente possui comunicação oral limitada, deficiência intelectual, alterações interoceptivas ou uma condição neurogenética complexa.
Ao mesmo tempo, sempre que possível, a própria pessoa autista deve ser incluída na conversa. Mesmo quando não utiliza fala oral, ela pode comunicar escolhas, recusas, desconfortos e necessidades por gestos, expressões, recursos visuais, comunicação alternativa ou outros meios. Falar apenas com o acompanhante, ignorando o paciente, também é uma forma de barreira assistencial.
O atendimento precisa ser adaptado
Conhecer o funcionamento básico do autismo e compreender as diferenças sensoriais e comunicacionais ajuda o profissional a direcionar melhor suas perguntas e reduz o risco de erros.
Algumas adaptações são simples:
- utilizar linguagem direta, concreta e sem ambiguidades;
- fazer uma pergunta por vez;
- oferecer mais tempo para o processamento e a resposta;
- permitir o uso de comunicação alternativa, imagens, escalas visuais ou indicação no próprio corpo;
- reduzir luzes, ruídos e circulação de pessoas quando possível;
- explicar previamente cada procedimento;
- evitar toques inesperados;
- permitir a presença de uma pessoa de referência;
- perguntar como o paciente costuma demonstrar dor ou desconforto;
- identificar mudanças recentes em sono, alimentação, eliminações, mobilidade, medicações, nível de consciência e comportamento;
- registrar quais sinais diferem do funcionamento basal;
- investigar causas orgânicas antes de concluir que a manifestação é exclusivamente comportamental ou psiquiátrica.
As barreiras enfrentadas por pessoas autistas no acesso à saúde incluem dificuldades de comunicação, ambientes sensorialmente hostis, sensação de não serem compreendidas e problemas para avaliar quando um sintoma exige atendimento. Essas barreiras estão associadas a atrasos na busca por cuidado e a condições de saúde que permanecem sem tratamento. (“Mason et al., 2019”
(https://link.springer.com/article/10.1007/s10803-019-04049-2)).
Autismo não imuniza ninguém contra outras doenças
Uma pessoa autista pode ter ansiedade, depressão ou uma manifestação comportamental relacionada ao ambiente. Mas ela também pode ter pneumonia, infecção urinária, apendicite, constipação grave, fratura, alteração metabólica, doença autoimune, efeito adverso medicamentoso, crise epiléptica ou qualquer outra condição clínica.
O diagnóstico de TEA não pode funcionar como uma barreira que impede a investigação.
Da mesma forma, condições neurogenéticas frequentemente estão associadas a diferentes manifestações neurológicas, cardíacas, gastrointestinais, endócrinas, imunológicas e musculoesqueléticas. Nesses casos, conhecer a síndrome, revisar o histórico médico e compreender as comorbidades mais frequentes não é um cuidado adicional: é parte da avaliação clínica necessária.
Não se espera que todo profissional conheça profundamente todas as condições raras. Espera-se, porém, que reconheça os limites do próprio conhecimento, consulte fontes
adequadas, dialogue com a equipe que acompanha o caso e encaminhe o paciente quando necessário.
Antes de dizer “é do autismo”, investigue
Diante de uma mudança aguda ou relevante, algumas perguntas podem ajudar:
- Esse comportamento é habitual ou surgiu recentemente?
- Houve mudança na intensidade, frequência ou duração?
- O paciente está dormindo, alimentando-se e evacuando como de costume?- Houve febre, queda, trauma, vômitos, alteração urinária ou redução da ingestão de
líquidos? - Alguma medicação foi iniciada, suspensa ou teve sua dose modificada?
- Existem episódios de olhar fixo, perda de responsividade, confusão ou movimentos diferentes do padrão habitual?
- Como essa pessoa costuma demonstrar dor?
- O que a família ou o cuidador percebeu de diferente?
- O paciente possui epilepsia, deficiência intelectual, síndrome genética ou outras comorbidades que precisam ser consideradas?
- Quais causas clínicas ainda não foram descartadas?
O autismo deve orientar a forma de conduzir o atendimento, mas não deve limitar as hipóteses diagnósticas.
Não é falta de conhecimento não saber tudo. É perigoso não investigar.
Atender adequadamente uma pessoa autista não exige que o profissional tenha todas as respostas. Exige disponibilidade para observar, perguntar, adaptar, escutar e reconhecer quando precisa ampliar a investigação.
Formação técnica importa. Comunicação acessível importa. Adaptação sensorial importa. Trabalho interdisciplinar importa. Ouvir a pessoa autista e quem conhece seu
funcionamento também importa.
Quando uma manifestação clínica é reduzida imediatamente a “comportamento”, “ansiedade”, “depressão” ou “autismo”, o paciente pode perder um tempo precioso.
Por isso, diante de uma queixa, não pergunte apenas se ela pode ser explicada pelo TEA. Pergunte também:
O que podemos estar deixando de enxergar por causa do diagnóstico de autismo?
Cuidar começa quando o diagnóstico deixa de ser o fim da investigação e passa a ser
parte da compreensão integral daquela pessoa.
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Talita Silva dos Santos
Psicóloga/ Neuropsicóloga
CRP 06/187.812
Referências
HALLYBURTON, A. Diagnostic overshadowing: an evolutionary concept analysis on the
misattribution of physical symptoms to pre-existing psychological illnesses. International
Journal of Mental Health Nursing, v. 31, n. 6, p. 1360–1372, 2022. DOI: “10.1111/
inm.13034″ (https://doi.org/10.1111/inm.13034).
HIRVIKOSKI, T. et al. Premature mortality in autism spectrum disorder. The British Journal
of Psychiatry, v. 208, n. 3, p. 232–238, 2016. DOI: “10.1192/bjp.bp.114.160192” (https://
doi.org/10.1192/bjp.bp.114.160192).
HUANG, Y.-H. et al. Excess mortality in individuals with autism spectrum disorder: a
population-based cohort study. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 20, p. 247
255, 2024. DOI: “10.2147/NDT.S437766” (https://doi.org/10.2147/NDT.S437766).
MASON, D. et al. A systematic review of what barriers and facilitators prevent and enable
physical healthcare services access for autistic adults. Journal of Autism and
Developmental Disorders, v. 49, n. 8, p. 3387–3400, 2019. DOI: “10.1007/
s10803-019-04049-2″ (https://doi.org/10.1007/s10803-019-04049-2).
PU, Y. et al. Disease and mortality trajectories of cognitively able autistic individuals in mid-
and later adulthood. BMC Medicine, v. 23, art. 280, 2025. DOI: “10.1186/
s12916-025-04095-x” (https://doi.org/10.1186/s12916-025-04095-x).
Leitura complementar
AKOBIRSHOEV, I. et al. In-hospital mortality among adults with autism spectrum disorder
in the United States: a retrospective analysis of US hospital discharge data. Autism, v. 24,
n. 1, p. 177–189, 2020. Disponível em: “PubMed” (https://
pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31187641/).
DOHERTY, M. et al. Barriers to healthcare for autistic adults: consequences and policy
implications. A cross-sectional study. BMJ Open, v. 12, e056904, 2022. DOI: “10.1136/
bmjopen-2021-056904″ (https://doi.org/10.1136/bmjopen-2021-056904).
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